Por Adriana Aliani Costa – Aurora Montessori
Algumas histórias são escritas de uma vez. Outras vão sendo construídas aos poucos, como uma colcha de retalhos: cada pedaço carrega uma cor, uma textura, uma lembrança e, quando todos se encontram, revelam uma imagem que talvez não pudéssemos enxergar enquanto a história ainda estava sendo vivida.
A minha história profissional e pessoal é assim.
Ela foi costurada ao longo de mais de duas décadas dedicadas à educação, atravessou fronteiras, encontrou diferentes culturas e ganhou novos significados a cada etapa. E, no centro de tudo, permaneceu uma pergunta que continua me acompanhando:
Que tipo de educação queremos oferecer às crianças que estão construindo o mundo de amanhã?
O início de uma jornada que nunca terminou
Minha relação com a educação começou muito antes de eu compreender que ela se tornaria o fio condutor da minha vida.
Foram anos em salas de aula, acompanhando crianças, jovens e adultos, ensinando inglês, levando alunos para o exterior, coordenando e formando equipes e participando da construção de projetos pedagógicos.
Com o tempo, entretanto, ensinar deixou de significar apenas apresentar conteúdos.
Passei a compreender que existe uma dimensão muito mais profunda no ato de educar: a possibilidade de participar da formação de seres humanos mais autônomos, conscientes e preparados para fazer escolhas.
Foi essa compreensão que me aproximou cada vez mais da filosofia Montessori.
A criança no centro e o adulto diante do espelho
Montessori trouxe uma mudança significativa para a minha maneira de enxergar a educação.
Quando observamos verdadeiramente uma criança, percebemos que ela não está esperando que alguém faça tudo por ela. Ela está buscando oportunidades para fazer por si mesma.
Ela quer participar, experimentar, repetir, descobrir e quer sentir que é capaz.
Essa perspectiva parece simples, mas exige uma profunda transformação por parte do adulto.
Porque preparar uma criança para a autonomia significa, muitas vezes, preparar o adulto para abrir espaço.
É preciso saber quando intervir e quando esperar. Quando apresentar e quando observar. Quando oferecer ajuda e quando permitir que a criança descubra seu próprio caminho.
Foi nesse território entre autonomia, independência, respeito e observação que encontrei uma das maiores riquezas da educação Montessoriana.
E também encontrei uma nova versão de mim mesma como educadora.
A coragem de atravessar uma fronteira
Em 2021, decidi iniciar minha trajetória internacional.
Deixei o Brasil e fui viver no Canadá e conseguir uma certificação internacional.
Mudar de país traz consigo uma espécie de reinvenção. Não somos apenas nós que chegamos a um novo lugar; chegamos também com nossas certezas, nossos hábitos e nossas expectativas e, pouco a pouco, tudo isso é colocado à prova.
No Canadá, consegui meu diploma em Educação Montessoriana pela MACTE e tive a oportunidade de trabalhar em diferentes contextos Montessori, aprofundar minha experiência com crianças e famílias e conhecer outras formas de organizar a prática pedagógica.
Também vivi o desafio de atuar profissionalmente em outra cultura.
Estas experiências ampliaram o meu olhar. Percebi que existem diferentes maneiras de ensinar, diferentes estruturas escolares e diferentes culturas educacionais, mas algumas necessidades das crianças permanecem universais: serem respeitadas, ouvidas, acolhidas e desafiadas de maneira adequada ao seu desenvolvimento.
Entretanto, a experiência internacional não substituiu minhas raízes brasileiras. Ela ampliou meu repertório.
Voltar não significa voltar a ser quem éramos
Quando retornei ao Brasil, trouxe comigo muito mais do que experiências profissionais.
Trouxe perguntas e reflexões e novas referências.
Trouxe uma compreensão mais ampla sobre o papel do educador.
E trouxe também a sensação de que aquela viagem ao exterior havia sido, de certa forma, uma viagem para dentro.
Voltar para casa depois de viver fora do país é uma experiência curiosa. Reconhecemos os lugares, as pessoas e a língua, mas nós mesmos já não somos exatamente os mesmos.
O retorno me fez olhar para minha trajetória com outros olhos.
E foi nesse momento que comecei a enxergar com mais clareza o próximo capítulo.
Não queria apenas continuar fazendo parte da educação.
Queria contribuir para construí-la.
Da sala de aula à liderança
Ao longo dos anos, minha atuação foi naturalmente se ampliando.
Da sala de aula para a coordenação.
Da coordenação para a formação de professores.
Do trabalho direto com crianças para a relação com famílias e equipes.
E agora, para um novo desafio: a liderança escolar.
Assumir a direção de uma escola Montessori representa, para mim, muito mais do que ocupar uma posição de gestão.
Uma escola é uma comunidade.
É formada por crianças, famílias, professores, funcionários e gestores. Cada pessoa traz uma história, uma expectativa e uma maneira particular de compreender a educação.
O papel da liderança, portanto, não deveria ser apenas administrativo.
É também pedagógico, humano e relacional.
Uma boa escola precisa de planejamento, organização e estrutura. Mas precisa igualmente de propósito.
Precisa saber por que faz o que faz.
O ambiente que educa
Uma das ideias que mais me acompanham na educação Montessori é a importância do ambiente preparado.
O ambiente não é apenas o espaço físico.
Ele comunica, orienta, convida e estabelece possibilidades.
Uma sala organizada, acessível e pensada para a criança transmite uma mensagem silenciosa: “Eu acredito que você é capaz.”
Mas existe outro ambiente igualmente importante: o ambiente humano.
Professores preparados, relações respeitosas, famílias envolvidas e uma liderança que saiba escutar também fazem parte desse ambiente.
Por isso, acredito que transformar uma escola começa pela transformação do olhar de quem educa.
O que os recomeços me ensinaram
A vida também tem seus intervalos.
Há momentos em que somos obrigados a diminuir o ritmo, rever prioridades e perceber que nem sempre podemos controlar o caminho.
Esses momentos nos ensinam algo que nenhum currículo consegue ensinar: a importância de respeitar o próprio tempo.
Aprendi que recomeçar não é sinal de fracasso.
Recomeçar é reconhecer que ainda existe vida, possibilidade e propósito depois de uma mudança.
Talvez seja por isso que eu tenha tanto carinho pela palavra “recomeço”.
Ela não fala sobre esquecer o passado.
Fala sobre continuar.
Ainda há muito a construir
Hoje, quando penso nos próximos anos, vejo diante de mim um caminho que combina tudo aquilo que fui aprendendo ao longo da minha trajetória.
A experiência como professora.
A formação pedagógica.
A vivência internacional.
A educação bilíngue.
A experiência Montessori.
A coordenação de equipes.
A relação com famílias.
E, acima de tudo, a convicção de que a educação pode contribuir para formar pessoas mais conscientes, independentes e capazes de conviver com o outro.
É também por isso que desejo compartilhar conhecimento com outros educadores e contribuir para que mais escolas conheçam os princípios Montessori de maneira profunda e coerente.
Não acredito em fórmulas prontas.
Acredito em formação, reflexão, observação e diálogo.
Acredito em adultos que também estejam dispostos a continuar aprendendo.
Uma história ainda em construção
Talvez hoje eu consiga olhar para trás e compreender que nenhum dos capítulos estava isolado.
A professora preparou o caminho para a coordenadora.
A coordenadora preparou o caminho para a liderança.
O Brasil me deu minhas raízes.
O Canadá ampliou meus horizontes.
Montessori transformou meu olhar.
E cada desafio acrescentou uma nova camada à pessoa e à profissional que me tornei.
Minha história, portanto, não é uma linha reta.
É feita de curvas, encontros, partidas e retornos.
E talvez essa seja a beleza de uma vida dedicada à educação: perceber que, enquanto acreditamos estar ensinando, também estamos sendo continuamente educados pela vida.
Ainda tenho muitos projetos, muitos sonhos e muitas perguntas.
E isso me deixa feliz.
Porque, depois de tantos anos, continuo acreditando que educar é aceitar que sempre existe algo novo para aprender.
E que todo novo aprendizado pode ser o primeiro ponto de uma nova história.
Deixar um comentário