Rebeca Castro é professora da Ciências Biológicas e doutora em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros.  Mãe de Isabela, 5 anos, Rebeca conheceu o Método Montessori de forma um pouco inusitada. Um encontro que ganhou raízes e parece que vai ganhou força ao longo destes poucos anos. Confira!

Lembra como foi o seu primeiro contato com o Método Montessori?
Apesar de ter feito uma graduação com foco na licenciatura, pouco ouvi sobre o método de Maria Montessori. Uma professora de Psicologia da Educação em uma de suas aulas mencionou Montessori resumidamente como sendo “um método um pouco diferente para crianças menores”. Acreditei nisso e achei que o assunto não era pra mim, já que meu foco de ensino são os alunos maiores. Anos se passaram, fui lecionar Ciências e Biologia para o Ensino Médio e Fundamental II no método tradicional em escolas públicas e particulares, iniciei minha carreira acadêmica, casei e engravidamos.

No início da minha gravidez estava preocupada com a quantidade de itens que um bebê iria demandar. Meu esposo tentando me acalmar disse: “Não se preocupe com o berço. Qualquer coisa colocamos um colchãozinho no chão para o bebê!”. O repreendi pela ideia tão absurda! “Onde já se viu?”, pensei.

Dias depois buscando inspirações para o novo quarto do bebê, eis que vejo a foto de um bebê recém-nascido num colchãozinho no chão, tal qual meu esposo mencionou. Minha surpresa foi ler “Quarto Montessoriano” e perceber que aquela ideia absurda dele tinha fundamento científico! Aquele momento foi o divisor de águas.

E o que exatamente a atraiu no método?
Pesquisando mais e mais, vi que o método de Maria Montessori não se resume apenas a algumas estratégias diferentes adotadas por raras escolas “no jardim da infância” (tal qual foi me apresentado resumidamente na faculdade). Suas ideias eram aplicáveis não somente na escola, mas em todos os lugares e principalmente nos lares e desde o nascimento.

Em cada  fala da doutora italiana minha visão acerca do desenvolvimento do recém-nascido, da criança e consequentemente da humanidade ia mudando.

A visão de Montessori foi ao encontro a vários interesses meus como: organização, minimalismo, preferência por itens naturais e sustentáveis, leveza, silêncio, simplicidade, educação, Biologia, neurodesenvolvimento, inclusão, respeito, conceitos bíblicos… Ela uniu tudo isso e muito mais de forma perfeitamente harmônica.

Como tem sido desde então?
A ideia rejeitada inicialmente de colocar um colchão no chão foi o ponta pé para tantas mudanças e adaptações no nosso ambiente, que continua sendo alterado conforme aparecem novas necessidades segundo a fase de desenvolvimento da Isabela.

Desde a gravidez tenho tentando aprender mais e aplicar esses conhecimentos com a nossa filha. Leio livros de Maria Montessori (meu favorito é o Mente Absorvente), faço cursos (oferecidos por exemplo pelo Lar Montessori e ABEM), me inspiro em escolas e casas que seguem o método…

Quais os principais desafios, dificuldades e recompensas?
Os desafios são buscar aprender e romper com a minha “velha visão” acerca da criança, sem o qual é impossível aplicar esses conhecimentos.

O mais simples e rico é tornar a casa acessível e incentivá-la a alcançar autonomia e liberdade vendo sua satisfação na conquista de pequenas tarefas, participando de tarefas cotidianas de vida prática.

Outro desafio é a acessibilidade de certos materiais. Busco inspirações e confecciono a maioria deles para usar com a Isabela a fim de torná-los mais acessíveis, já que muito dos materiais tem custo elevado. Comecei confeccionando móbiles ainda no seu primeiro mês, depois foram cards, letras de lixa, alfabetos móveis, barras vermelhas e azuis…
Durante o período da pandemia com o ensino online vi mais ainda a necessidade de ter esses materiais em nossa casa.

Todo esforço é válido quando vemos as conquistas sendo alcançadas em cada etapa de seu desenvolvimento.

Que impactos acredita que o Método Montessori tem na sua vida? Você disse que aplica o método em seu dia-a-dia.
O método Montessori tem o potencial de estimular o desenvolvimento intelectual ligado à leitura, escrita e matemática de forma exponencial quando comparado ao método tradicional. Além disso, percebemos que as crianças educadas segundo a pedagogia científica acabam tendo uma visão de mundo concreta e ao mesmo tempo cósmica. Cada uma das atividades de desenvolvimento tem o dom de despertar a alma da criança através do alcance da autonomia, da paz, da liberdade e da satisfação.

Outras atividades que são muito prazerosas e pouco percebidas na vida adulta são aquelas relacionadas aos sentidos. As atividades sensoriais, além de serem muito divertidas, provocam marcas profundas na Isabela e me fazem enxergar o seu crescimento e desenvolvimento como sendo testemunha de um verdadeiro milagre.

Hoje Isabela tem o privilégio de estudar numa escola Montessori conceituada com aplicações de princípios e valores que também acreditamos. Esse é o motivo pelo qual não optamos pela educação domiciliar atualmente, mas esse é um grande desejo para o nosso futuro. Isso exigirá de nós aprofundar mais sobre como aplicar o método Montessori na fase da adolescência (período entre 12 a 18 anos).

Ainda continuo aprendendo, pois o método é sensível, rico, profundo. Esses conceitos práticos antes de ser aplicado na vida da minha filha precisa principalmente da minha constante transformação e reeducação. Eis aí o meu maior desafio!

“A famosa parábola evangélica dos convidados ao banquete exprime simbolicamente este fato eterno: é preciso um certo grau de “simplicidade”, de “pobreza” para entrar em novos reinos.” (MARIA MONTESSORI,  A formação do homem, p. 34).