A educadora Ângela Maria de Sousa Perez tem 51 anos, 34 deles vividos dentro do Colégio Maria Montessori, em Campo Grande-MS, onde é coordenadora do maternal ao 5º ano do Ensino Fundamental. Chegou no colégio indicada por uma amiga para trabalhar como auxiliar. Já nos primeiros meses teve a oportunidade de fazer um dos poucos cursos de formação em Montessori na época. Era o início de uma caminhada de três décadas e meia, que incluiu cursos pela OMB, pela AMB e uma pós-graduação com Talita de Almeida na ABEM. Confira!
“Aos 16 anos mudei de Araçatuba-SP para Campo Grande-MS e comecei a estudar para o magistério. Logo apareceu uma colega perguntando se eu tinha interesse em trabalhar na área. Eu era caixa em uma loja de motopeças e claro que disse sim. Ela contou que havia entrado no Colégio Maria Montessori em fevereiro e que ainda estavam precisando de pessoal.
Fui ao colégio para uma entrevista com a diretora e comecei a trabalhar em 21 de março. Lá se vão 34 anos! Foi lá que conheci o Método Montessori, em um colégio que sempre teve uma política muito séria em relação ao treinamento dos professores.
Nesses 34 anos, mudou muito o acesso ao método. As pessoas estão conhecendo mais e tendo mais acesso a ele. Lembro que o meu primeiro curso Montessori foi o da Irmã Maria Valentina, uma das precursoras do ensino do método no Brasil. Foram 30 dias de curso em julho de 1987. Só fomos por que a diretora do colégio em que trabalhava tinha apartamento em São Paulo. Depois foram mais 30 dias em janeiro de 1988.
Hoje tudo é muito diferente! Há cursos em várias cidades pelo Brasil, por várias instituições, como ABEM, OMB e IMB. As pessoas têm mais acesso ao ensino do Método Montessori e muitos passam a conhecer um pouco mais sobre ele. Me arrisco a dizer que estamos vivendo uma nova onda do Montessori. Quando eu comecei a trabalhar não sabia nada sobre ele, que parecia estar adormecido. Essa ramificação, com vários lugares oferecendo formação, mudou tudo.
Em 34 anos, Montessori foi só alegria na minha vida. Tive o privilégio de trabalhar em uma escola que sempre facilitou minha ida aos cursos que eu queria fazer. Estou na coordenação do colégio há 15 anos e hoje me orgulho de receber filhos de ex-alunos meus. É uma alegria e é bom saber que a gente fez um pouquinho de diferença na vida daquelas crianças, que se tornaram bons adultos, que hoje reconhecem o nosso trabalho e trazem seus filhos para passarem pelo mesmo processo.
Hoje, com minha experiência, posso dizer que o aluno montessoriano é diferente. Torna-se um adulto mais educado, mais humano e mais criativo. Uma escola amorosa cria seres humanos amorosos. E essa é a grande sacada do método, o seu grande diferencial. É bom dizer que o ambiente da escola é lindo, que a dinâmica é diferente, mas é a filosofia que fica no coração das pessoas.
Nesse sentido, Montessori impacta a vida de qualquer pessoa que se proponha a viver de fato a rotina de uma escola montessoriana. Para o professor, a primeira coisa que muda quando ele entra é a percepção de que ele não vai dar aula simplesmente por dar. Ele tem que estudar e saber o conteúdo, conhecer o seu aluno e ter como objetivo principal transformar cada criança na sua plenitude. Fazer com que ela chegue ao seu máximo em cada aula. E há ainda a dinâmica usada para isso, que propõe coisas como cuidar mais dos nossos gestos, a guardar tudo o que pegamos no lugar onde pegamos, que a ordem exterior influi na ordem interior e vice-versa. É uma mudança de filosofia de vida.
Uma mudança que tem seus desafios. E posso dizer que foi um desafio enorme trabalhar em uma escola montessoriana durante a pandemia. E também uma tristeza imensa ver as crianças sem a possibilidade de manusear o material por estarem em casa. Sem conviverem em grupo, trabalhar e sentarem com um amigo. Foi algo dramático para quem trabalha com Montessori.
Pensem em um professor acostumado a planejar uma aula de português sobre os símbolos gramaticais com papel… Em uma escola tradicional a professora continuou falando e mostrando no quadro. Também deve ter sido um desafio fazer isso à distância. Mas para uma escola para uma escola montessoriana foi muito mais. Tivemos que nos revirar muito para dar conta e pensar em formas criativas. Em outras escolas elas precisam escolher o material com que vão trabalhar, sentar no chão com um amigo e montar o material. Todas as disciplinas têm uma diversidade de material muito grande.
Construir o seu conceito através do material e não apenas ouvir o conceito pronto que o professor tem para apresentar. Superamos? Sim! Tivemos sucesso? Bastante! Aqui em Mato Grosso do Sul voltamos em setembro de 2020. Mesmo assim foi preciso uma adaptação para voltarmos, por que não pudemos voltar com o método montessoriano por causa da vigilância sanitária e da secretária de educação. Teve o distanciamento, as carteiras separadas…
O nosso grande diferencial, dos professores montessorianos, é que temos uma filosofia. O ambiente e o material são importantíssimos, mas é a filosofia que nos fortalece e que nos dá liga. Montessori não deixou um legado fixo, inflexível. Tivemos que nos adaptar à nova realidade e às possibilidades de envio de conhecimento e de pensar a educação dentro da casa deles. A filosofia de Maria Montessori vai além do ambiente preparado!
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